quinta-feira, 12 de abril de 2012

Valeram as penas!!!


Valeram as penas!


                            
Joubert de Oliveira Sobrinho
Devocional CRE de 11.04.2012

Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem. Isaías 7:14-15

O texto de Isaías é uma profecia a respeito do nascimento de Jesus. O profeta afirma que ele nasceria de uma virgem, que seu nome seria “Deus Conosco”, significado da palavra Emanuel, que comeria manteiga e mel e que chegaria um tempo em que ele saberia rejeitar o mal e escolher o bem.

Esta última afirmação é de difícil entendimento, pois, como Jesus sendo Deus e sem pecado teria que vir a saber ou aprender a rejeitar o mal e escolher o bem? Isto significa que por um tempo, na tenra infância, ele não saberia fazer esta distinção? Sendo assim ele teria que receber instrução, ensino, recursos para que no tempo devido adquirisse o discernimento do que era o bem e o mal e, assim, poder rejeitar a um e escolher o outro com sua própria vontade.

Para alguns comentaristas, este texto é tão misterioso que preferem atribuí-lo não diretamente a Jesus, objeto da profecia messiânica do verso 14, mas ao filho do rei Acaz ou mesmo ao filho menor de Isaías, juntando os versos 15 e 16 numa profecia mais imediata, para aquele tempo.

Acredito que o verso 15 refere-se a Jesus por algumas razões que mencionarei a seguir. As figuras bíblicas ajudam a discernir a Palavra de Deus. Alguém já afirmou que manteiga e mel, além de significarem no texto o alimento sólido que se dá a uma criança mais crescida, fariam referência especificamente ao conhecimento da Palavra e à sabedoria adquirida pelo sofrimento.



Manteiga

Manteiga é a gordura que se origina da nata do leite batido. O leite é figura da Palavra de Deus como um alimento básico, fundamental para o crescimento espiritual e que antecipa o alimento sólido indicado aos mais crescidos. Portanto, comer manteiga significaria ter um maior ou mais profundo conhecimento da Palavra de Deus:

Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo, 1Pe 2.2

Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento, Hb 5.12
Mel

O mel é o líquido viscoso e doce produzido pelas abelhas a partir do néctar das flores e processado por suas enzimas digestivas, sendo armazenado em favos em suas colmeias para servir-lhes de alimento. No próprio capítulo 7 de Isaías os Assírios, inimigos de Israel, são chamados de abelhas,

Porque há de acontecer que naquele dia assobiará o SENHOR às moscas, que há no extremo dos rios do Egito, e às abelhas que estão na terra da Assíria; E todas elas virão, e pousarão nos vales desertos e nas fendas das rochas, e em todos os espinheiros e em todos os arbustos. Isaías 7:18-19

O mel, então, figuraria a sabedoria adquirida através do sofrimento. Teria Jesus sofrido? Bem, sua mãe sofreu a pressão social por engravidar (pelo Espírito) antes do casamento; ao nascer não havia um lar ou hospedaria adequada para sua chegada; ainda pequeno teve que fugir para outro país para que não fosse morto; dezenas de meninos com menos de dois anos foram brutalmente assassinados por ordem de Herodes em razão de seu nascimento; quando adolescente, jovem e adulto teve que enfrentar as tentações comuns em suas etapas, razão pela qual o autor de Hebreus menciona:

Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Hebreus 4:15

O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. Hebreus 5:7-8

A exemplar educação de José e Maria

Certamente os pais de Jesus, José e Maria, deram a ele instrução adequada tanto na Palavra de Deus quanto na condução da vida através da educação do pensamento, do comportamento, do desenvolvimento dos bons hábitos, suprindo-o com recursos possíveis e exemplo para que ele pudesse saber rejeitar o mal e escolher o bem. Eles providenciaram meios para ajudar o Senhor do universo a ser humano e cumprir o propósito estupendo de sua vida como Salvador e Redentor da humanidade e de toda a Criação.



Sustentar e prover recursos para o cumprimento do propósito divino é o grande desafio para os pais e responsáveis pelas crianças. Não é simples dotar uma criança de meios e instrumentos para que tenha uma vida abençoada e livre de más escolhas e desgraças. Tanto que mesmo em face do melhor que os pais se esforçam em dar aos filhos, muitos deles escolhem o caminho mais difícil colhendo espinhos ao longo da vida por causa da má semeadura que fizeram. Neste momento os pais se perguntam frequentemente: - Onde errei? Mas, nem sempre os erros dos pais justificam a má escolha voluntária dos filhos. Que fazer, a não ser orar, quando eles decidem inverter a vontade de Deus, escolhendo o mal e rejeitando o bem?



A "Marquesa de Pombal"

No final de 2011 ocorreu um fato que me fez pensar muito especialmente na questão da provisão dos recursos que os pais empenham para ver os filhos bem encaminhados na vida. Numa manhã, quando ia retirar o carro da garagem, percebi uma movimentação excessiva da Bonnie, minha cadelinha toda preta e do Bijou, meu gato todo branco. Olhei debaixo do carro e lá se debatia uma pomba aparentando estar doente. Com o auxílio de uma vassoura trouxe a pomba para perto e notei o estado lastimável do pássaro e imediatamente pensei tratar-se de alguma enfermidade. Mas olhando com mais calma notei que todas as penas do rabo haviam sido arrancadas. A pele estava avermelhada e com os poros evidentes. As penas maiores da asa direita haviam sido cortadas à tesoura na altura da metade, provavelmente para que não voasse.

A princípio fiquei incomodado, pois a pomba tomava meu tempo, mas logo lembrei de Jesus dizendo que apesar dos pássaros terem pouco valor, o Pai cuidaria de suas vidas e de seu alimento... Resolvi pegar uma pequena caixa de papelão e protege-la em meu quintal. Separei alguma massa de pão molhado, um pouco de semente de linhaça, água e pude perceber o quanto ela estava faminta, pois comeu rapidamente e depois se aninhou no canto da caixa para descansar. Pronto. Acabei de arrumar mais uma coisa para me preocupar, pensei. Passei a chama-la de Marquesa de Pombal, nada a ver com o estadista português.



Logo me vi arrumando uma caixa maior, elaborando uns galhos que servissem de poleiro, adaptando um guarda chuva sobre a caixa, pesquisando na web o que come uma pomba, comprando painço, quirela, mistura de sementes para trinca-ferro (que ela gostava muito), folhas de verduras, cascas de ovo, tentando saber como suprí-la a fim de que voltasse a voar, o propósito da sua existência. O irmão Claudinei, ao saber da mais nova hóspede, emprestou-me uma gaiola de bom tamanho que ajudou muito no processo. Enfim, limpar gaiola, trocar água, colocar e trocar comida diariamente foram ações incluídas à força em minha rotina. E as penas do rabo começaram a crescer.

Sem paciência na prisão

A essas alturas já sabia que as penas arrancadas na raiz nasceriam novamente, mas as cortadas ao meio teriam que ser arrancadas para que as novas nascessem, senão, eu teria que esperar a muda anual, o que me desesperou. Então pensei: é só arrancar as penas  que foram cortadas! Mas, para ajudar, descobri que uma das maiores dores para um pássaro é o arrancar de suas penas... Imaginei o sofrimento dela tendo arrancadas todas as penas do rabo e agora eu lhe causaria a dor da asa? Sem coragem para arrancar as sete ou oito penas das asas que estavam cortadas ao meio, me vi pagando consulta em uma clínica  veterinária de uma especialista em aves selvagens que aplicou um analgésico na pomba antes de lhe arrancar todas as penas cortadas em cinco segundos.



Os dias foram passando, o rabo estava pronto e as penas das asas ainda despontavam, mas o comportamento da pomba começou a mudar. Em alguns momentos a docilidade era substituída pela braveza. De vez em quando ela bicava seguidamente minha mão, arrulhava alto e depois de comer, batia as asas e se jogava contra a porta da gaiola. Queria sair de qualquer maneira. Eu passei a me sentir um carrasco aprisionando um inocente... A partir de então, comecei a “treiná-la” em seu futuro voo. Fechava as janelas da sala, cobria os móveis e a forçava a voar. Mas as penas maiores que estavam crescendo faziam falta. Ela se esforçava, mas não conseguia manter-se no ar. Não podíamos fazer nada. Somente esperar as penas crescerem. Era frustrante, inclusive para mim, que ela desejasse voar sem poder e que seu aprisionamento estressante fosse, na verdade, a sua segurança.


Em fevereiro tive que viajar e providencialmente a professora Rosaninha se dispôs a cuidar da pomba. O gato dela deu um pouco de preocupação para a marquesa de pombal, porém, naqueles dias as penas das asas cresceram. Quando voltei, elas estavam grandes, quase do tamanho da outra asa. A veterinária até ligou perguntando dela. Esperava ter boas notícias! Fiz o teste na sala. Soltei-a e ela voou parando na altura do teto escolhendo onde iria pousar. Já estava chegando a hora de soltá-la. Ela estava em condições de decidir a vida por si mesma e cumprir o propósito de sua vida.

A conquista do céu

Na manhã seguinte, após a rotina de troca da comida, a Marquesa de Pombal começou a arrulhar alto, bater as asas e forçar a porta da gaiola. Orei pedindo proteção à ela e às demais pombas da região, dei graças a Deus pela experiência de quase quatro meses e subi para o terraço de minha casa. Retirei-a da gaiola, esperei que ela visualizasse algumas pombas voarem no horizonte, afinal ela deveria se juntar a um bando, e a coloquei no parapeito do muro. imediatamente ela abriu as asas e partiu para um voo diferente. Ela batia as asas sem parar, subindo muito acima da altura usual das pombas. Parecia querer experimentar sua nova capacidade, testar todos os recursos que recebeu e compensar o tempo de aprisionamento na gaiola. Uma vez lá em cima começou a voar em círculos, ainda batendo as asas. Até que parou e começou a planar mantendo o mesmo círculo no ar permanecendo assim um bom tempo. Então ela decidiu descer ainda circulando no céu e pousou sobre o telhado de uma casa. Na última vez que a vi ela se juntou a umas três outras pombas e voou para detrás das copas das árvores distantes.

A satisfação da missão cumprida

Quando dei por mim estava com um leve sorriso grudado, congelado, estampado no rosto durante todos aqueles minutos. Foi um voo de despedida, se bem que ela nem olhou para trás para dizer tchau. Mas eu não me importei. O sorriso estendido em minha face expressava a satisfação de meu coração. Custou, mas valeu a pena. Ou seria melhor: “valeram as penas”? Se fiquei satisfeito com um pássaro “sem valor” ao qual dediquei tempo e dinheiro para que tivesse a capacidade de voar, quanto mais deve sentir-se satisfeito um pai e uma mãe que investe a vida e renuncia às riquezas e oportunidades em favor de seus filhos? Estendo o raciocínio e afirmo que muito mais ainda se alegra o Senhor quando nos vê “voando” e usando todos os recursos que ele nos deu para cumprirmos o seu propósito. Ele é o Deus provedor que nos supre, sustenta e guarda.

Regozijar-me-ei muito no SENHOR, a minha alma se alegrará no meu Deus; porque me vestiu de roupas de salvação, cobriu-me com o manto de justiça, como um noivo se adorna com turbante sacerdotal, e como a noiva que se enfeita com as suas jóias. Isaías 61:10

Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça. Isaías 41:10

Para o Pai custou caro nos alcançar com a salvação. Custou a vida de seu Filho. Mas ao olhar para sua, a minha, a nossa vida, espero que ele possa dizer com um sorriso de satisfação: - Valeu a pena!

Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito, Isaías 53:11



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