sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um Conto Ligeiro



Joubert de Oliveira Sobrinho

...Acabam-se os nossos anos como um conto ligeiro. Salmo 90.9

Ano após ano tenho usufruído do privilégio de fazer o devocional semanal com os alunos do CRE – Centro Renovo de Educação, escola onde exerço a capelania. Em geral conto histórias para nelas destacar um ou mais princípios bíblicos e morais. Quando a história os surpreende, ao finalizá-las, ouço murmúrios e lamentos tais como: - AAHHH, já acabou? Conta mais...?!! As crianças gostariam que a história não acabasse.  Elas não percebem que o tempo passou e que precisam ir para suas classes.

Às vezes me surpreendo tendo a mesma reação, elaborando o mesmo murmúrio, o mesmo lamento, em relação ao nosso tempo da vida. Ela é como Moisés, autor do Salmo 90 escreveu: um conto ligeiro, um breve pensamento, um suspiro, um murmúrio... Essa  frustração soma-se a outros sentimentos de dor quando enfrentamos o fim da vida de nossos queridos. Assim como as crianças a eu gostaria que o “conto ligeiro” não acabasse e nem percebo que o tempo passou.

Há milênios Moisés escreveu este salmo 90 expressando argumentos que fazem par com nossas atuais percepções.
Destaco alguns versículos desta obra.

A dependência de Deus e sua natureza eterna
v.1  SENHOR, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração.
v.2  Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, tu és Deus.

O salmista lembra que as gerações anteriores se refugiaram em Deus, e inicia seus argumentos mencionando a sua eternidade.
Deus é eterno, Isaías 44:6  Assim diz o SENHOR, Rei de Israel e seu Redentor, o SENHOR dos Exércitos: Eu sou o primeiro e eu sou o último, e fora de mim não Deus. O autor de Hebreus, mencionando a divindade de Jesus, diz: Jesus Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente. Hebreus 13:8.

A ideia de eternidade que está na natureza divina também está no coração humano (embora não no corpo).
Eclesiastes 3:11  Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim.

Apesar da eternidade no coração, existe um limite para a vida do corpo
v.3  Tu reduzes o homem à destruição (ao pó); e dizes: Volvei, filhos dos homens.

Moisés certamente está se referindo ao texto de Gênesis 3.19 que ele próprio escreveu: No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado, porquanto és pó e em pó te tornarás.

Desde que o pecado encontrou habitação na natureza humana, a morte passou a fazer parte da história do homem, a ser o fim do conto ligeiro, das histórias de vida, dos murmúrios fugazes.

A eternidade está disponível a nós pela Palavra de Deus
Pedro menciona a fragilidade de nossas vidas, de todas as nossas conquistas e aponta para a fonte da eternidade:
1 Pe 1 24,25 - Porque toda carne (nosso corpo) é como erva, e toda a glória do homem (bens, valores, conquistas), como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; mas a palavra do Senhor permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.

Não devemos entender a Palavra de Deus como um conjunto literário arcaico e religioso. Na verdade as Escrituras nos apresentam a Palavra de Deus como uma Pessoa, também chamada de Verbo, João 1.1-15, que é, Jesus. Ele é a Palavra de Deus, Apocalipse 19.13. E todos quantos recebem a Palavra de Deus, ou Jesus, se tornam eternos com Ele. Pedro menciona que esta Palavra-Pessoa que nos foi dada é a única coisa que permanecerá eternamente.

A vida como um conto ligeiro, fragmentos de uma história
v.9  Pois todos os nossos dias vão passando... acabam-se os nossos anos como um conto ligeiro.
Esta palavra hebraica também é traduzida como: murmúrio, suspiro, gemido, breve pensamento, um fato contado às pressas, proferido rapidamente.

Moisés expressa a brevidade da vida com estas palavras tão reais. Quantos se lembrarão de nós daqui há 100 anos? Basta pensar no volume histórico que conhecemos de nossos avós ou bisavós. O que temos são fragmentos. Quanto mais distante, mais desconhecido, salvo exceções. Se por alguma obra excepcional nossos nomes fossem parar numa placa de rua ajudaria? Passo todos os dias por ruas cujos nomes são expostos em todas as esquinas. Esses nomes são de pessoas que não sei quem são nem o que fizeram. Se eu procurar certamente encontrarei o histórico sucinto com informações principais, trabalho, datas de nascimento e morte.

Grandes personagens de nossa história podem ser mais conhecidos através de biografias e documentos. Porém, tudo é muito pouco em relação ao significado real da vida de cada um. A verdade é que a nossa memória estará nas mentes de nossos queridos mais próximos e depois se desvanecerá.

O limite da vida e nosso voo certeiro
v.10  A duração da nossa vida é de setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o melhor deles é canseira e enfado, pois passa rapidamente, e nós voamos (para longe).

A descrição poética de Salomão no texto abaixo dispensa comentários, Eclesiastes 12.1-7:

Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento; antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva; no dia em que tremerem os guardas da casa, e se curvarem os homens fortes, e cessarem os moedores, por já serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas janelas; e as duas portas da rua se fecharem por causa do baixo ruído da moedura, e se levantar à voz das aves, e todas as vozes do canto se baixarem; como também quando temerem o que está no alto, e houver espantos no caminho, e florescer a amendoeira, e o gafanhoto for um peso, e perecer o apetite; porque o homem se vai à sua eterna casa, e os pranteadores andarão rodeando pela praça; antes que se quebre a cadeia de prata, e se despedace o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se despedace a roda junto ao poço, e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.



A oração de Moisés
v.12  Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos coração sábio.

A palavra Sabedoria – chokmah - indica:
·       Habilidade (na guerra) - Ef 6.12; 1Tm 6.12 (combate da fé...toma posse da vida eterna)
·       Sabedoria (em administração) - 1 Pedro 4:11
·       Perspicácia, agudeza e penetração da vista, da inteligência;
·       Sabedoria, prudência (em assuntos religiosos) - 2 Pedro 2:1; 1 João 4:1 
·       Sabedoria (ética e religiosa) – conduta moral adequada, exemplar.
Andar de maneira sábia no curso da vida nos ajudará a usufruir o melhor dela. No entanto esta sabedoria vem de Deus. Ele é a fonte de sabedoria e a concede liberalmente a quem pede, Tiago 1.5.

A primeira busca
v.14  Sacia-nos de madrugada (de manhã) com a tua benignidade, para que nos regozijemos e nos alegremos todos os nossos dias.

Ideia que remete aos nossos primeiros valores. A quê damos a primazia em nossa vida? Jesus disse: Mateus 6.33Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.
Que a intimidade com Deus seja a primeira busca, o principal valor da vida. A promessa é de que, dali por diante, nossos dias serão repletos de alegria e as demais coisas nos serão acrescentadas.

Conseguimos ver o que Deus está fazendo em nossa história de vida?
v.16  Apareça a tua obra aos teus servos, e a tua glória, sobre seus filhos.

Há muitos que não veem, não percebem a obra de Deus na terra; não têm consciência da ação de Deus em suas vidas. Bom seria que relacionássemos as ações que reconhecemos serem divinas em nossas vidas. Precisamos nos lembrar delas em muitos momentos especiais, especialmente nas tribulações.

Daniel tinha plena consciência da soberania, da interferência, do mover de Deus na História humana. Daniel 2.20-22 - Falou Daniel e disse: Seja bendito o nome de Deus para todo o sempre, porque dele é a sabedoria e a força; ele muda os tempos e as horas; ele remove os reis e estabelece os reis; ele dá sabedoria aos sábios e ciência aos inteligentes. Ele revela o profundo e o escondido e conhece o que está em trevas; e com ele mora a luz.

Clamor pelo propósito da vida
17  E seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; e confirma sobre nós a obra das nossas mãos; sim, confirma a obra das nossas mãos.
Deus quer nos saciar com o real sentido da vida. Ele quer nos livrar da angústia de não ter perspectiva do amanhã. Paulo diz que o que nos consola é a esperança da vida eterna em Jesus: Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança. 1Tessalonicenses 4.13.

Deus quer que tenhamos uma história eterna
João 3:16 Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
João 17:3 E a vida eterna é esta: que conheçam a ti só por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste.
Romanos 6:22,23  Mas, agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna. Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor.

O reino de Jesus é eterno e quem estiver com Ele em seu reino usufruirá de sua eternidade. O nosso conto ligeiro desta terra será substituído por uma história eterna com Deus.

Lucas 1.1-33 - E eis que em teu ventre conceberás, e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu Reino não terá fim.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O homem que arriscou tudo para se opor à cultura da morte


24 Jan 2011 11:20 PM PST
24 de janeiro de 2011 (Notícias Pró-Família/Breakpoint.org)
Provavelmente, você nunca ouviu falar de Lothar Kreyssig — eu não tinha, até recentemente. Contudo, depois de conhecer a história dele, percebi que Kreyssig era um herói para os nossos tempos: um homem que, correndo um risco quase que inacreditável, defendia firmemente a santidade da vida humana.
Em outubro de 1939, o Terceiro Reich criou o que veio a ser conhecido como o programa “Ação T4”. Para fomentar o que os nazistas chamavam de “higiene racial”, os burocratas do Reich, trabalhando com médicos, eram autorizados a identificar e matar aqueles que eram considerados “indignos de viver”, isto é, pacientes institucionalizados com “graves deficiências”.
É claro que expressões como “indigno” e até mesmo “graves” são subjetivas. Na realidade, elas são licença para assassinatos em massa. Hitler exigiu que pelo menos 70.000 pessoas fossem mortas sob este programa, de modo que médicos e autoridades se lançaram para cumprir as cotas do Führer.
Temendo reações na Alemanha e outros países, os nazistas tentavam esconder o que estava ocorrendo: mentiam para as famílias dos pacientes e, prenunciando Auschwitz, disfarçavam as câmaras de gás como chuveiros.
Quando penso no que aconteceu com aquelas pessoas, principalmente com as crianças — alguns como meu neto autista Max — fico com o coração partido — fico horrorizado.
Os nazistas também se esforçavam para dar uma aura de legalidade para os assassinatos: Hitler pessoalmente ordenou que os juízes alemães não levassem a juízo médicos por matarem seus pacientes. E é aí que entra Kreyssig: Ele era um juiz altamente respeitado em sua terra natal, a Saxônia.
Mas ele era mais do que um juiz — Kreyssig era um dos líderes da Igreja Confessante, que resistia às campanhas do Reich para “nazificar” as igrejas protestantes. Ser um membro da Igreja Confessante, sem mencionar ser líder, era viver com uma marca de tiro ao alvo pintada nas costas.
À medida que mais e mais certificados de óbito para pessoas mentalmente doentes passavam pela sua mesa, Kreyssig percebeu que algo horrível estava acontecendo.
Ele escreveu para o ministro da Justiça do Reich protestando não só contra o programa Ação T4, mas também contra o tratamento dos prisioneiros dos campos de concentração. Ele então acusou um médico de assassinato em conexão com as mortes de seus pacientes.
Então ele foi chamado para o gabinete do ministro, onde ele foi informado de que o próprio Hitler havia autorizado o programa. Ao que Kreyssig respondeu: “A palavra do Führer não cria um direito”.
A coragem de dizer isso para uma autoridade governamental na Alemanha nazista era extraordinária. Kreyssig foi forçado a se aposentar. Embora a Gestapo tivesse tentado fazer com que ele fosse enviado a um campo de concentração, o medo de atrair a atenção para o programa T4 provavelmente salvou a vida de Kreyssig.
Ele passou o resto da guerra em casa cuidando de sua fazenda e, oh sim, escondendo judeus em sua propriedade.
O único juiz a resistir aos nazistas viveu quarenta e um anos a mais do que o “Reich de 1.000 anos”. Vinte anos depois de sua morte, a Alemanha realizou um memorial honrando sua bravura e compaixão.
Numa cultura onde ser “maria-vai-com-as-outras” era literalmente uma estratégia de sobrevivência, Kreyssig recusou ficar de boca fechada. Quando a maioria dos protestantes alemães adaptou sua fé às exigências do Reich, ele recusou cooperar e deixou claro que havia uma lei mais elevada.
Felizmente, a defesa da santidade da vida hoje em dia não requer nada parecido com o que Kreyssig passou com sua coragem. Mas requer coragem. E requer também compreender a Aquele cuja Palavra realmente cria um direito.
Este artigo foi reproduzido com permissão de breakpoint.org
Traduzido por Julio Severo: www.juliosevero.com

domingo, 23 de janeiro de 2011

Resposta a um amigo


Esse texto é sobre o crer e o descrer na existência de Deus, em resposta a um amigo que se tornou ateu. 

Hamilton Furtado
Em 21 de janeiro de 2011

Antes de mais nada acho importante dizer algumas coisas.

A primeira é que a convicção sobre Deus (a existência ou inexistência) é essencialmente individual sob quaisquer circunstâncias. Alguém pode olhar para a Lua e concluir “Deus existe”, enquanto ao seu lado outra pessoa olha para mesma Lua e conclui “Deus não existe”.

Outra coisa é que as questões relevantes ao questionador teísta geralmente são diferentes das que intrigam o questionador ateísta. Acho inclusive que esse é um dos principais motivos que levam principalmente o lado ateísta a deduzir que os crentes não questionam sua fé, mas também o oposto acontece.
Sendo assim, nessa minha resposta não há a menor pretensão de convencer a quem quer que seja de que meus questionamentos sejam extensos o suficiente ou profundos o suficientes do ponto-de-vista de terceiros, pois como disse, há um sério fator pessoal envolvido.

Isso posto, acho que dá para falar um pouco da minha experiência pessoal.

Eu já nasci em um lar cristão. Há quem possa achar que isso é uma condição viciante para o processo, mas eu entendo o contrário. Eu penso que é a condição mais justa do ponto-de-vista da igualdade. Muita gente não nasce em um lar cristão, ou quando é cristão, não vive realmente como se Deus existisse. Assim, acaba jamais tendo em sua vida uma noção completa do que seja crer em Deus, ser um cristão e a cristandade.
No meu caso, eu tive a oportunidade de conhecer e entender a mensagem cristã e contemplar o cristianismo como princípio de vida posto em prática. Uma vez que o cristianismo só faz sentido quando posto em prática, fica muito mais fácil entender certas coisas dessa forma.

O grande modelo de cristão para mim era e é até hoje a minha mãe. Seu eu tivesse que escolher um só ser humano com modelo de quem cumpriu a mensagem de Jesus da forma mais humanamente possível seria ela. Para ela, parece nunca haver tempo ruim, porque nada parece ser tão difícil; nunca reclamando de nada; sem fazer a menor questão de colocar seus interesses em primeiro lugar; disposta a ajudar mesmo quando ela própria precisa de ajuda; dando a maior força para os filhos, jamais proferindo uma palavra de desencorajamento. Além disso, nas imagens da minha infância ela sempre aparece com alguma música nos lábios, em meio à rotina da casa e da vida.

Se um dia eu conseguir ser metade do que ela é como cristã, já vou me dar por satisfeito.

Por outro lado, nada disso me impediu logo cedo de me deparar com as grandes questões da ciência e da humanidade. Meu pai dava aulas de história e geografia. Lia muito e a biblioteca dele sempre foi um lugar fascinante para mim. Ele tinha de tudo ali e não nos ocultava nada. Desde anuários do IBGE até a coleção completa dos Pensadores. Tinha Arquipélago Gulag, Conhecer, 1984, Gênios da Pintura, e milhares de outras coisas, romances, arte, estatísticas, mapas, ciência, psicologia, filosofia, teologia, política, história e o que você imaginar. Além dos livros, ele tinha uma coleção de minérios, onde vez ou outra ele adicionava um fóssil qualquer. Um dia aparecia com um dente de elefante fossilizado, outro dia com uma raiz parecida com mandioca, no outro, com um peixe impresso numa rocha vinda do Ceará. Essas coisas sempre vinham acompanhadas de comentários e informações: “ali pode ter sido um mar”, dizia ele.

Meu pai apontava para o céu e me explicava: “aquelas três estrelas são o cinturão do caçador, aquelas duas ali, os seus cães de caça”, ou, “aquele avermelhado ali é um planeta, por isso ele muda de posição, enquanto as outras estrela não”.

Assim eu aprendi o que era um ano-luz, o nome das caravelas de Colombo, o que foi Pangea e Gondwana, muito antes de ser ensinado na escola, e milhares de outras coisas que o currículo escolar nunca ensina.
Por tudo isso, eu desde cedo desenvolvi uma curiosidade incomum, seja nos parâmetros cristãos, sejam ateístas.

Mais tarde eu comecei a criar peixes ornamentais. Cheguei a ter oito aquários ao mesmo tempo. Consegui reproduzir várias espécies, primeiro as vivíparas, mais fáceis, depois ovíparas, arriscando até desenvolver algumas variedades, coisa que eu tive que interromper por falta de espaço. Eu via como cada espécie se integrava ao seu ambiente, como todas as famílias tinham coisas em comum, me impressionava com a forma de um peixe adaptado para viver deitado no fundo de areia, com seus dois olhos voltados para cima, ou com outro, capaz de guardar na boca toda a prole depois soltá-la intacta, após o perigo ter passado.
Aquilo me impressionava. Eu via lógica, via engenhosidade e, se a dedicação do autor se expressa na excelência da obra, eu via naquilo tudo a expressão máxima de dedicação de um autor por sua obra.
Assim, quando na adolescência eu resolvi assumir minha fé com minhas próprias pernas, Deus não era para mim um desconhecido que eu tinha encontrado pela primeira vez e que eu teria que passar muito tempo ainda testando para ver se dava para confiar. Deus era o resultado lógico de uma visão de mundo construída ao longo de anos. Ele era sem dúvida o designer engenhoso e detalhista de um universo amavelmente ajustado para hospedar o homem, e mais, esse homem era eu.

Num certo ponto, acontece isso que os céticos enxergam como o fim dos questionamentos. Mas não é isso que ocorre. Não é que questionamentos não aconteçam mais, mas após algumas convicções e experiências, simplesmente está fora de cogitação rejeitar a existência de Deus por causa de algum percalço ou dúvida específica. Deus já se revelou. Você negá-lo não vai resolver a questão que por acaso está em aberto e vai acaber criando outras, ainda mais incontornáveis.

Para um cristão num certo estágio é mais provável uma vontade de questionar a atitude de Deus, a postura de Deus, do que a existência dele propriamente dita. Por isso eu entendo com um grau razoável de certeza que a postura mais comum de quem perde a fé depois de uma certa altura não é o ateísmo do “Deus não existe”. É um distanciamento frio do “Deus não faz diferença”. Acho que muita gente sabe bem do que eu estou falando.

Para o cético, uma das maiores barreiras a dificultar a crença em Deus parece ser a questão da origem da vida. Curiosamente, a primeira vez que um ateu me chamou de “bitolado” foi por causa disso. “Não pergunta para ele que ele é crente. E crente é bitolado”, disse ele para um outro colega que estava junto numa discussão. Foi ao vivo, muitos anos antes da Internet facilitar esse tipo de confronto.
Eu fiquei sem ação. Pela primeira vez eu vi alguém levando a sério aquelas brincadeiras classistas que todo mundo faz, mas ninguém acredita: que todo engenheiro é metódico, todo arquiteto é viado, todo judeu é pão-duro, toda loira é burra. Ele acreditava mesmo naquilo: “crente é bitolado”.
Para ele o dilema da criação era um sério problema. Para mim, nunca foi.

Eu vi que a ciência nos possibilitou entender a complexidade do universo, mas também vi que nem de longe conseguiu responder muitas das questões que mais afligem e intrigam o ser humano. Nem mesmo no âmbito da simples natureza ela tem todas as respostas. É difícil colocar um canguru dentro de um barco no Oriente Médio? Mas é igualmente difícil explicar como um peixe de 40 milhões de anos pode existir tanto na África e na América se elas se separaram a 100 milhões de anos.

Entendi que o que ciência oferece é apenas uma fração da nossa compreensão do universo e da nossa vida.
Portanto, se eu posso aceitar a ciência pelo que ela responde, sem rejeitá-la pelo que ela não responde, então não há mistério em aceitar a Bíblia pelo que ela responde, independentemente daquilo que ela não responde.

O que eu fiz ao longo de todo esse tempo foi sistematizar alguns conceitos que na verdade já existiam e já foram colocados ao longo da longa história da humanidade.
Eu comecei a descobrir que muitas pessoas já haviam feito as mesmas perguntas que eu, algumas com respostas, outras não. Algumas convincentes, outras não.
Toda vez que isso acontece eu questiono a existência de Deus. Mas também questiono a sua inexistência.
Para um cristão – eu, no caso – questionar a fé vai mais além de um simples “será que Deus existe?” Eu faço isso nem sempre por dúvida, mas até para analisar e entender alguma coisa melhor.

Isso eu já fiz colocando na balança questões filosóficas, morais, naturais. “Se Deus não existe então como é que fica isso? E se Deus existe, como é que fica isso”.
Da minha parte, o que eu observo é que ser teísta é uma vantagem nessa hora, porque eu tenho mais liberdade e menos bloqueios para fazer a mesma pergunta nas duas vias, da existência e da não existência, enquanto vejo que para muitos céticos agnósticos ou ateus, o exercício de perguntar “como seria isso se Deus existisse”, simplesmente não é levado em conta. Basta para eles uma explicação do ponto-de-vista da não existência e o questionamento para por aí.

Há questões em aberto? Provavelmente. Eu tenho uma frase para isto:
“Se Deus existe, algumas coisas são difíceis de explicar, se ele não existe, algumas são impossíveis de explicar.”
Só não venha ninguém questionar minha fé com brilhantes teorias sobre Inteligência Emocional, psicologia evolutiva, genealogias de Jesus, ou por causa das bruxas que os puritanos mataram.

E, para quem leu até aqui, o que eu posso dizer para concluir é que na minha experiência, o mundo, a vida, o homem permanecem explicáveis somente na condição da existência de Deus. Por isso minha fé permanece.
Não é preciso necessariamente ter tanta informação assim. Nem é impossível sem ter tido pais como os meus. Quando se conhece uma pessoa real você pode rejeitar conviver com ela, pode evitá-la, mas não dá para negar honestamente que ela existe.
Deus antes de mais nada é alguém com que se pode ter um relacionamento. No meu caso o caminho para descobri-lo tem sido esse.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Peritos negam que ossuário de irmão de Jesus seja falso

Depois de cinco anos de processo, Justiça israelense afirma que caixa mortuária de Tiago tem dois mil anos e encerra o caso

Rodrigo Cardoso


O ossuário descoberto por Golan pode ser a primeira conexão arqueológica de Cristo com o Novo Testamento. Em parte da inscrição (abaixo) está escrito, em aramaico: “irmão de Jesus”



Ela pesa 25 quilos. Tem 50 centímetros de comprimento por 25 centímetros de altura. E está, indiretamente, no banco dos réus de um tribunal de Jerusalém desde 2005. A discussão em torno de uma caixa mortuária com os dizeres “Tiago, filho de José, irmão de Jesus” nasceu em 2002, quando o engenheiro judeu Oded Golan, um homem de negócios aficionado por antiguidades, revelou o misterioso objeto para o mundo. A possibilidade da existência de um depositário dos restos mortais de um parente próximo de Jesus Cristo agitou o circuito da arqueologia bíblica. Seria a primeira conexão física e arqueológica com o Jesus do Novo Testamento. Conhecido popularmente como o caixão de Tiago, a peça teve sua veracidade colocada em xeque pela Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA). Em dezembro de 2004, Golan foi acusado de falsificador e a Justiça local entrou no imbróglio.No mês passado, porém, o juiz Aharon Far­kash, responsável por julgar a suposta fraude cometida pelo antiquário judeu, encerrou o processo e acenou com um veredicto a favor da autenticidade do objeto. Também recomendou que o IAA abandonasse a defesa de falsificação da peça. “Vocês realmente provaram, além de uma dúvida razoável, que esses artefatos são falsos?”, questionou o magistrado. Nesses cinco anos, a ação se estendeu por 116 sessões. Foram ouvidas 133 testemunhas e produzidas 12 mil páginas de depoimentos.
Especialista em arqueologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém, Rodrigo Pereira da Silva acredita que todas as provas de que o ossuário era falso caíram por terra. “A paleografia mostrou que as letras aramaicas eram do primeiro século”, diz o professor do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). “A primeira e a segunda partes da inscrição têm a mesma idade. E o estudo da pátina indica que tanto o caixão quanto a inscrição têm dois mil anos.” O professor teve a oportunidade de segurá-lo no ano passado, quando o objeto já se encontrava apreendido no Rockfeller Museum, em Jerusalém.
Durante o processo, peritos da IAA tentaram desqualificar o ossuário, primeiro ao justificar que a frase escrita nele em araimaco seria forjada. Depois, mudaram de ideia e se ativeram apenas ao trecho da relíquia em que estava impresso “irmão de Jesus” – apenas ele seria falso, afirmaram.
A justificativa é de que, naquele tempo, os ossuários ou continham o nome da pessoa morta ou, no máximo, também apresentavam a filiação dela. Nunca o nome do irmão. Professor de história das religiões, André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, levanta a questão que aponta para essa desconfiança. “A inscrição atribuiria a Tiago uma certa honra e diferenciação por ser irmão de Jesus. Como se Jesus já fosse um pop­star naquela época”, diz ele. Discussões como essa pontuaram a exposição de cerca de 200 especialistas no julgamento. A participação de peritos em testes de carbono-14, arqueologia, história bíblica, paleografia (análise do estilo da escrita da época), geologia, biologia e microscopia transformou o tribunal israelense em um palco de seminário de doutorado. Golan foi acusado de criar uma falsa pátina (fina camada de material formada por microorganismos que envolvem os objetos antigos). Mas o próprio perito da IAA, Yuval Gorea, especializado em análise de materiais, admitiu que os testes microscópicos confirmavam que a pátina onde se lê “Jesus” é antiga. “Eles perderam o caso, não há dúvida”, comemorou Golan.
O ossuário de Tiago, que chegou a ser avaliado entre US$ 1 milhão e US$ 2 milhões, é tão raro que cerca de 100 mil pessoas esperaram horas na fila para vê-lo no Royal Ontario Museum, no Canadá, onde foi exposto pela primeira vez, em 2002. Agora que a justiça dos homens não conseguiu provas contra sua autenticidade, e há chances de ele ser mesmo uma relíquia de um parente de Jesus, o fascínio só deve aumentar.
Fonte: ISTOÉ Comportamento N° Edição:  2140  - http://tinyurl.com/4mkp2g7